Programa de Governo - Educação: entre a promessa de futuro e a prova da escola
O Programa do Governo «Cabo Verde para Todos» procura enfrentar essa
distância ao apresentar a Educação, a Ciência, a Inovação e a Transformação
Digital como pilares de uma sociedade do conhecimento. A visão é correcta e a
ambição é grande. O desafio está em saber se o sistema terá condições para
transformar medidas dispersas numa política coerente e com resultados visíveis.O capítulo cobre todo o percurso formativo, do pré-escolar ao ensino
superior, passando pela formação profissional, pela ciência e pela inovação. A
abrangência é um dos seus méritos. Reconhece a educação como instrumento de
mobilidade social, formação de cidadãos e coesão nacional. Falta perceber por
onde se começa, com que meios se avança e como se mede aquilo que muda.Da escola para todos à aprendizagem
de cada umA integração plena do pré-escolar no sistema formal é uma das propostas mais
estruturantes. A desigualdade educativa começa antes do ensino básico, quando
crianças com experiências linguísticas, culturais e cognitivas muito diferentes
chegam à escola sem as mesmas condições para aprender. Universalizar o acesso é
medida de justiça social, desde que não signifique apenas criar vagas. Exige
qualidade pedagógica, educadores preparados e articulação clara entre Estado e
autarquias.No ensino básico e secundário, o Programa prevê currículos actualizados,
competências digitais, pensamento crítico, aprendizagem activa, autonomia das
escolas e inclusão. A orientação é moderna. Há, contudo, um risco conhecido:
reformar o vocabulário mais depressa do que a sala de aula. Currículos novos e
tecnologias só produzem resultados quando os professores têm formação, tempo e
condições para os aplicar.A autonomia curricular pode aproximar o ensino da realidade dos alunos e
das comunidades. Precisa, porém, de liderança, acompanhamento e
responsabilidade. Uma escola sem recursos recebe encargos, não autonomia, e
pode ampliar desigualdades que a descentralização pretendia corrigir.A valorização dos professores deve permanecer no centro da política
educativa. Formação inicial e contínua, revisão dos concursos para directores e
melhoria gradual das condições salariais são medidas relevantes, mas
insuficientes sem tempo para preparar aulas, acompanhar alunos, trabalhar em
equipa e actualizar conhecimentos.Formar para o trabalho sem reduzir a educação ao mercadoO Programa identifica como problema central o desajuste entre competências
adquiridas e necessidades da economia. A formação profissional surge como
instrumento de empregabilidade e inclusão. Cabo Verde precisa de técnicos
qualificados, percursos flexíveis e maior ligação entre centros de formação,
empresas e sectores estratégicos.A valorização dos saberes adquiridos pela experiência profissional é
importante num país onde muitas competências foram construídas fora da escola.
Certificar esses saberes é reconhecer trabalho, experiência e capacidade,
abrindo novas oportunidades de formação e emprego. É aproximar o sistema
educativo da vida concreta de adultos que aprenderam a fazer antes de
transformarem esse saber em diploma.O ensino técnico não pode continuar a ser visto como caminho de segunda escolha.
Precisa de prestígio, qualidade, exigência e progressão. Uma sociedade moderna
não se constrói apenas com licenciados. Precisa igualmente de bons técnicos,
bons profissionais e percursos formativos dignos.No ensino superior, a gratuitidade nas universidades públicas é uma das
medidas mais fortes do capítulo. Pode alargar o acesso e reduzir a pressão
sobre as famílias. Exige, contudo, financiamento estável. Sem ele, mais acesso
pode significar turmas sobrecarregadas, laboratórios frágeis, bibliotecas insuficientes
e precariedade docente.A universidade ganha quando se liga à economia e à sociedade, mas perde
quando é reduzida à preparação imediata para o emprego. Forma profissionais,
produz conhecimento, desenvolve pensamento crítico e ajuda o país a compreender
os seus problemas. Uma universidade que apenas responde ao mercado chega sempre
atrasada; uma universidade que investiga ajuda a criar futuro.Ciência, inovação e o caminho da execuçãoA criação de um Fundo Nacional para a Ciência, Tecnologia e Inovação, com
dotação inicial correspondente a 0,2% do PIB, é uma das poucas metas
financeiras explícitas do capítulo. A proposta dá materialidade a uma área
frequentemente celebrada nos discursos e esquecida nos orçamentos. Investir em
conhecimento significa ampliar capacidade de decisão e criar respostas próprias
para problemas nacionais.O apoio à formação de doutorados, o regresso de investigadores da diáspora
e as parcerias entre universidades, empresas e Estado podem fortalecer um
sistema científico ainda pequeno. O valor de um fundo, porém, depende de
concursos regulares, avaliação independente, critérios transparentes e
continuidade.Ciência não se constrói por campanhas. Precisa de laboratórios,
bibliotecas, bases de dados, carreiras de investigação e tempo protegido.
Precisa também de reconhecer áreas sem retorno económico imediato, como as
ciências sociais, as humanidades, a língua, a história, a cultura e a educação.
Um país precisa de tecnologia para competir e de conhecimento sobre si próprio
para não se perder.A transformação digital atravessa todos os níveis do Programa. A direcção é
inevitável, mas tecnologia na escola não se resume à distribuição de
equipamentos. Exige conectividade, manutenção, conteúdos, formação de
professores e critérios pedagógicos. Um computador sem projecto educativo é
apenas mais um objecto na sala.Há ainda uma ausência que merece ser assinalada: o lugar da língua
cabo-verdiana na educação. O Programa fala em competências digitais, línguas
estrangeiras, inovação e mundo globalizado, mas não enfrenta com clareza a
questão linguística. Uma política educativa inclusiva precisa de abordar, com
conhecimento e serenidade, a articulação entre a língua cabo-verdiana e a
língua portuguesa. Deixar o assunto fora do capítulo não o retira da sala de
aula.Também fica pouco desenvolvida a educação ao longo da vida. Num país
marcado por mudanças tecnológicas, mobilidade e reconversão profissional, a
educação de adultos, a segunda oportunidade e a literacia digital deveriam ter
maior visibilidade. A escola deixou de terminar com a juventude.O capítulo da Educação apresenta uma visão ampla, actual e, em vários
pontos, corajosa. Reconhece a escola como instrumento de igualdade, valoriza os
professores, aproxima formação e trabalho, propõe alargar o ensino superior e
dá à ciência uma meta de financiamento. Falta transformar a multiplicidade de
medidas numa sequência política clara: o que será feito primeiro, quanto
custará, quem será responsável e que indicadores mostrarão se os alunos aprendem
melhor.O Programa afirma que investir na educação, na ciência e na inovação é o
investimento mais rentável que uma Nação pode fazer no seu futuro. A afirmação
é correcta. O futuro, porém, começa na escola de hoje, no professor que entra
na sala, no aluno que consegue aprender, no jovem que encontra formação com
sentido e na universidade que produz conhecimento. Entre a promessa e o
resultado encontra-se a política educativa que Cabo Verde terá de provar.Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1285
de 15 de Julho de 2026.
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