Expresso das ilhas

17h

Cape Verde

Cabo Verde: Uma Nação Disruptiva e agora no Mundo do Futebol

Cabo Verde: Uma Nação Disruptiva e agora no Mundo do Futebol
O duelo entre Cabo Verde e Argentina foi seguido, no estádio e pela televisão, com a trepidação de uma disputa épica entre David e Golias. O resultado oficial foi 3-2 para a Argentina, mas a vasta maioria dos espectadores sabe quem verdadeiramente “ganhou” aqueles 120 minutos de disputa renhida: foi Cabo Verde. Não fossem as irregularidades de arbitragem, amplamente apontadas nas redes sociais por adeptos atentos, os Tubarões Azuis teriam, no mínimo, chegado às grandes penalidades. E, estamos certos, de que Vozinha teria mostrado a Messi e aos seus colegas como se ganha uma bandeira. Perante o mundo inteiro, Cabo Verde reafirmou a sua vocação de Nação disruptiva: uma seleção estreante que enfrentou, com tenacidade, dignidade e fair play, a campeã mundial de 2022, fazendo-a estremecer durante 120 longos minutos. Inacreditável!Cabo Verde nasceu disruptivo. Somos a primeira Nação do Novo Mundo que criou um mundo novo. Quando Cristóvão Colombo chegou às Caraíbas, em 1492, já havia em Cabo Verde pelo menos uma geraçãodecabo-verdianos a falar a nossa língua.Umpovomestiço,falandocrioulo,forjava no Atlântico Médioumacultura defusãoentreaEuropaeaÁfrica. Colombo constatou-o alguns anos mais tarde, ao fazer escala no arquipélago durante a sua terceira viagem às “Índias” ocidentais. Antes de o chamado “Novo Mundo” ter nome, Cabo Verde já era um mundo novo — o primeiro fora do continente europeu.O cabo-verdiano foi sempre um povo resiliente. Contra a seca e a fome, forjou uma Nação com projeção muito além das fronteiras insulares. A nossa língua espalhou-se pela costa ocidental africana, pelas ilhas ABC — Aruba, Bonaire e Curaçao —nas Caraíbas, e chegou à Ásia, de Malaca a Macau. Poucos povos tão pequenos em número deixaram marca tão duradoura em variantes do crioulo como o papiamento, o papiá kristang, o papiaçam ou o patuá macaense.Fomos disruptivos também ao ser o único povo africano a emigrar voluntariamente para a América do Norte no tempo da escravatura ainda antes de as antigas colónias britânicas se tornarem nos primeiros 13 Estados fundadores da Nova República - hoje a nossa maior comunidade na diáspora. A bordo dos navios baleeiros Yankees, os nossos marinheiros deixaram a sua marca na história marítima americana — feito que Herman Melville registou com eloquência para a posteridade no seu seminal romance, Moby Dick.No século XX, Amílcar Cabral — um dos grandes pensadores humanistas e heróis políticos de África—liderou cabo-verdianos e bissau-guineenses, sob uma visão pan-africanista, na luta de libertação que conduziria à criação da Nação-Estado cabo-verdiana em 5 de julho de 1975. Meio século depois da independência, o país continua disruptivo: construiu e aperfeiçoou, com persistência, uma das democracias mais sólidas de África. A boa governação e as remessas dos emigrantes permitiram-lhe ascender de país menos avançado a país de rendimento médio-alto em apenas três décadas — percurso notável, alcançados em petróleo, ouro, diamantes ou outros recursos naturais tradicionais. Bastaram a resiliência doseupovo, a boa governação, o clima e a posição estratégica no Atlântico Médio.Foi também, CesáriaÉvora quem, já em idade madura, entreabriu a cortina do palco mundial, revelando a riqueza da música cabo-verdiana, contribuindo de forma indelével para o reconhecimento universal da Morna, em 2019, como Património Imaterial da Humanidade.Agora, outra estrela cabo-verdiana — Vozinha — brilhou no firmamento. No dia 15 de junho, no jogo de estreia de Cabo Verde contra a Espanha no Mundial 2026, mostrou o seu real valor como exímio guarda-redes. Encantou o mundo com a elegância de um ginasta-bailarino, deslizando pelo ar a catar as bolas que vinham na sua direção. De figura pouco conhecida fora de Cabo Verde, passou, quase de um dia para o outro, à celebridade internacional no mundo digital. E, com ele, outras estrelas dos Tubarões Azuis fizeram brilhar Cabo Verde inteiro no jogo mais falado deste Campeonato do Mundo. Igualmente brilhante nesse jogo foi a jogada magistral orquestrada e rendilhada durante mais de meio minuto por vários jogadores antes ser corado com o golo inesquecível de Sidny Lopes Cabral. E tudo decorreu sob a maestria da batuta e do olhar atento e sereno do coach “Bubista”. No Stress Cabo Verde!Com grande dificuldade, a Argentina acabou por vencerpor3-2. Mas os nossos Tubarões Azuis saíram do campo como heróis, reconhecidos no mundo inteiro pela competência, pela resiliência e pelo elevado sentido de fair play. O jogo ficará na história como um dos mais surpreendentes e memoráveis não só deste Campeonato do Mundo, mas estou certo de que tornar-se-á facto lendário no mundo de futebol.É verdade, no dia 3 de julho 2026, o mundo tomou nota desta pequena Nação diaspórica: com menos de meio milhão de residentes no arquipélago e cerca do dobro espalhado pelo mundo. A centralidade de Cabo Verde no Atlântico Médio, durante séculos um simples ponto de escala, tornou-se âncora—e hoje é farol. Um pequeno Estado insular que já não passa despercebido com a simpatia granjeada junto de mais de 2.7 mil milhões de espectadores que acompanharam o jogo.Certamente, outra equipa levará para casa o troféu do Mundial 2026. Mas esse troféu ficará para sempre à sombra dos Tubarões Azuis de Cabo Verde. Como diz um cartaz que circula nas redes sociais com a imagem de Vozinha: “Cabo Verde pode não ter conquistado o Mundial, mas conquistou o Mundo”!Obrigado,TubarõesAzuis, por continuarem a trilhar —e a alargar —este caminho de Nação disruptiva que é Cabo Verde, orgulhando o nosso povo, no país e na diáspora, e conquistando a simpatia de quase um terço da Humanidade.Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1285 de 15 de Julho de 2026.

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