Fluorose dentária na Brava: um problema de gerações que ganha finalmente uma resposta
Aos 12 anos, Iva Valdez percebeu que os
seus dentes tinham uma aparência diferente. As manchas que começaram a surgir
no sorriso, ainda na infância, fizeram-na acreditar que o problema estava
relacionado com como cuidava da sua higiene oral. Só mais tarde compreenderia
que se tratava de fluorose dentária, uma condição associada ao consumo
prolongado de água com excesso de flúor.Na altura, vivia na Ilha Brava com o pai,
enquanto a mãe se encontrava evacuada em Portugal. O pai saía cedo para
trabalhar e Iva sentia que a responsabilidade pelos seus próprios cuidados era
maior. Por isso, procurou corrigir aquilo que pensava ser uma falha sua.“Pensava que seria talvez a forma como
fazia a minha higiene bucal”, conta. Passou a escovar mais os dentes e procurou
as melhores pastas dentífricas na tentativa de eliminar as manchas.Na Brava, onde a fluorose afecta várias
pessoas, existiam também soluções populares transmitidas entre gerações. Uma
delas era o uso de fezes de baleia (âmbar cinzento), que muitos acreditavam
ajudar a melhorar o aspecto dos dentes.“Todas as pessoas costumavam dizer para
esfregar fezes de baleia nos dentes porque eliminava isso. Toda a gente tinha
um pedaço em casa para esfregar nos dentes”, recorda.Apesar da crença, o método não conseguia
remover as manchas mais profundas. “Limpava bem os dentes, mas não tirava
aquela mancha que já se tinha enraizado nos dentes”, explica.Durante a infância e adolescência, o
sorriso, uma das suas características pessoais, passou a ser motivo de
insegurança. Iva conta que ao se mudar para a cidade da Praia, muitas pessoas
identificavam imediatamente a sua origem pela condição dos seus dentes.“Quando uma pessoa te conhece, a primeira
coisa que diz é: ‘És da Brava’. A pergunta é: como sabes? Devido aos teus
dentes”, relata.A situação incomodava-a, sobretudo porque
sabia que o problema não estava relacionado com falta de higiene, mas com a
água consumida na ilha. “Era uma coisa que não tinha como ser revertida naquele
momento. Então era um complexo, uma timidez”, afirma.“Havia pessoas que perguntavam se era
falta de uma boa higienização ou se aquilo talvez desse mau cheiro”, lembra.
Ter de explicar constantemente a causa das manchas tornou-se uma experiência
desconfortável.Já adulta, decidiu procurar ajuda. Um
amigo incentivou-a a consultar um dentista e, após avaliação, optou por fazer
um desgaste dentário para remover as marcas mais visíveis. O tratamento incluiu
também restauração com resina. No total, pagou cerca de 19 mil escudos.Depois do procedimento, diz que recuperou
a confiança e acredita que muitas pessoas na Brava continuam sem procurar
soluções.Segundo explica, uma das principais razões
é a falta de motivação e o desconhecimento de que existem tratamentos
possíveis. Muitas pessoas acabam por acreditar que a fluorose não tem solução.Outro factor, aponta, é a questão
financeira. “As pessoas têm aquela ideia de que dentista é muito caro”, afirma,
embora considere que, em alguns casos, o valor pode ser mais acessível do que
imaginam.“Fluorescer Brava” trata 70 pessoas na
primeira intervenção e prevê chegar a 500 afectadosA fluorose dentária afecta praticamente
toda a população da Ilha Brava e resulta da ingestão excessiva de flúor durante
o período de formação dos dentes.Para responder a esta realidade, o
projecto “Fluorescer Brava” iniciou uma intervenção que pretende beneficiar
cerca de 500 pessoas nos próximos dois anos, por meio de técnicas de mínima
intervenção.Carla Freire, dentista e coordenadora do
projecto conta que o “Fluorescer Brava” surgiu após um tratamento realizado
numa criança bravense recorrendo a técnicas de mínima intervenção. O resultado
levou a família a procurar formas de disponibilizar a mesma resposta à
população da ilha.O pai da criança apresentou a questão ao
presidente da Câmara Municipal da Brava, que contactou Carla Freire para
desenvolver uma intervenção mais abrangente.O projecto conta actualmente com uma
equipa cabo-verdiana coordenada por Carla Freire e pela dentista Laura Lisa
Graça, de Santo Antão, e com uma equipa brasileira liderada pela professora
Sandra Kalil, que integra ainda seis professores e sete investigadores.Na primeira fase da iniciativa, em que
participaram 14 dentistas cabo-verdianos, foram atendidas cerca de 80 pessoas em
dois dias, principalmente crianças, adolescentes e jovens entre os 6 e os 25
anos, faixa etária considerada prioritária pelo impacto que as alterações
dentárias podem ter na auto-estima e integração social. “Cerca de 80 pessoas foram atendidas nesta primeira
intervenção”, revela ao Expresso das Ilhas.Segundo a especialista, a equipa ficou
surpreendida com a dimensão do problema encontrado na ilha. “Os professores
brasileiros, já que não conheciam a realidade da ilha, ficaram mesmo surpresos
ao verem que, afinal, todas as pessoas da ilha apresentavam fluorose”, relata.A fluorose manifesta-se através de manchas
nos dentes, alterações na sua estrutura e, nos casos mais graves, perda de
tecido dentário. Carla Freire explica que a doença ocorre durante a fase de
desenvolvimento dentário, sobretudo entre o primeiro e o oitavo ano de vida,
devido ao consumo prolongado de água com excesso de flúor.“Estamos a actuar neste momento nas
consequências do excesso de flúor presente naturalmente na água da Brava, mas o
mais importante ainda é remover esse flúor que tem causado este problema”,
alerta.Para a dentista, a prevenção passa pelo
tratamento da água. “Se a água for tratada, futuramente não teremos mais casos
de fluorose, porque a fluorose acomete os dentes durante o período de
desenvolvimento dentário”, indica.Tratamentos combinam várias técnicas para
recuperar dentes afectadosO projecto recorre a técnicas de mínima
intervenção, com o objectivo de melhorar a estética dos dentes, mas também
recuperar a sua função e resistência.Entre os procedimentos utilizados estão a
desproteinização, a microabrasão, o clareamento dentário, a infiltração
resinosa e restaurações com resina em casos de maior destruição da estrutura
dentária.“A microabrasão é um produto específico
que não causa grandes desgastes nos dentes, na estrutura dos dentes, que já
estão fragilizados pela fluorose”, explana Carla Freire.A infiltração resinosa, por sua vez,
permite preencher as porosidades do esmalte dentário e tornar a estrutura mais
resistente. O tratamento aplicado varia conforme o grau de severidade de cada
caso.“Há casos que usamos só o infiltrante, mas
há casos que é necessário fazer o clareamento, há casos que já só com
desproteinização funciona. Varia conforme o grau de severidade da fluorose”,
detalha.Recursos e equipamentos são principais
desafiosApesar da dimensão do problema, o projecto
enfrenta limitações relacionadas com financiamento, equipamentos e deslocações.
A inexistência de uma estrutura odontológica equipada na ilha obriga a equipa a
adaptar os espaços disponíveis para realizar os tratamentos.“Na Brava, o acesso é sempre um pouco mais
complicado. Temos de ir de barco e temos de ficar mais tempo na ilha, e isto
acaba por aumentar também os custos com a logística”, lamenta a coordenadora.Carla Freire sublinha que a continuidade
da iniciativa depende da mobilização de parceiros para aquisição de
equipamentos e materiais.“O projecto depende 100% de parcerias para
podermos ter dinheiro tanto para a aquisição de consumíveis como de
equipamentos”, reitera.Além da fluorose, a equipa identificou
outros problemas de saúde oral entre os pacientes, como cáries dentárias e
gengivite, que também necessitam de intervenção.A intenção é, no futuro, alargar o
projecto a outras zonas do país onde existem casos de fluorose, mas a
prioridade mantém-se na Brava, considerada pela especialista como a ilha que
apresenta maior necessidade de resposta nesta área.O projecto é promovido pela Câmara
Municipal da Brava, em parceria com a Fundação Nilza Varela, a Delegacia de
Saúde, a Embaixada do Brasil e empresas como a Emprofac e as Linhas Aéreas de
Cabo Verde._____________________________________________________________Em 2024, o médico dentista Ednilson Delgado
revelou, através do estudo "Prevalência da Fluorose Dentária em Crianças
de 12 anos da Ilha Brava, Cabo Verde", que todas as 72 crianças de 12 anos
avaliadas na ilha apresentavam fluorose dentária, sendo cerca de 80% dos casos
classificados como moderados ou severos.A investigação identifica a exposição
prolongada à água com excesso de flúor como a principal causa e alerta que a
situação constitui um problema de saúde pública que exige uma intervenção
urgente.A investigação avaliou crianças das
escolas de Nova Sintra e de Nossa Senhora do Monte, cruzando a observação
clínica com informações sobre consumo de água, hábitos de higiene oral e acesso
aos cuidados de saúde.Os resultados confirmaram uma realidade já
conhecida pelos profissionais, mas nunca demonstrada cientificamente na ilha.“Encontrar uma prevalência de 100% e uma
proporção tão elevada de casos moderados e severos demonstra que a exposição ao
excesso de flúor foi intensa e prolongada durante muitos anos”, afirma Ednilson
Delgado ao Expresso das Ilhas.Segundo o investigador, o problema
ultrapassa a dimensão estética. O estudo indica que 45,8% das crianças
classificam a aparência dos dentes como má e 19,4% como muito má.Além disso, 47,2% identificam as manchas
como o aspecto que mais as incomoda, enquanto quase metade admite que estas
condicionam o sorriso espontâneo.A investigação conclui que a principal
fonte de exposição ao flúor continua a ser a água proveniente da nascente de
Encontro. Conforme o dentista, estudos anteriores identificaram concentrações
entre 6,4 e 6,7 mg/L, mais de quatro vezes acima do limite máximo de 1,5 mg/L
recomendado pela Organização Mundial da Saúde para consumo humano.“Quando um estudo demonstra que todas as
crianças avaliadas apresentam fluorose dentária e que cerca de 80% têm formas
moderadas ou severas da doença, deixa de ser um problema individual para passar
a ser um problema de saúde pública”, defende.Edinilson Delgado considera prioritário
garantir o acesso da população a água com níveis seguros de flúor. Enquanto a
unidade de dessalinização da ilha não estiver plenamente operacional, propõe
medidas transitórias de desfluoretação da água da nascente de Encontro e
reforço dos cuidados de saúde oral para tratar os casos já existentes.“A prioridade deve ser garantir que toda a
população da Ilha Brava tenha acesso a água com níveis seguros de flúor”,
sustenta. O especialista alerta que cada criança que cresce na ilha continua
potencialmente exposta durante o período crítico de formação dos dentes.No final da
investigação, Ednilson Delgado admite que o mais marcante foi confirmar
cientificamente a dimensão do problema.Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1285
de 15 de Julho de 2026.
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