Luanda - O MPLA é, historicamente e por definição estatutária, um partido político de centro-esquerda, orientado pela ideologia do Socialismo Democrático. Essa identidade não é meramente simbólica, nem um resquício retórico do passado de luta. Ela constitui o fundamento político, ético e programático que orienta a acção do Partido no exercício do poder, na formulação de políticas públicas e na relação com o povo angolano.
Fonte: Club-k.net
Contudo, nos últimos anos, tem-se tornado cada vez mais visível um fenómeno preocupante: militantes que progridem rapidamente nas estruturas do Partido e do Estado sem domínio sólido da linha ideológica do MPLA. Em alguns casos, chegam a cargos de elevada responsabilidade governativa com uma visão tecnocrática, pragmática ou até ideologicamente neutra - quando não claramente desalinhada - em relação aos princípios que historicamente distinguem o Partido.
Esta realidade coloca um desafio sério à coesão interna e à identidade política do MPLA, sobretudo num momento crucial como o que se avizinha. O Congresso Ordinário de 2026, que decidirá a liderança do Partido - se pela continuidade ou renovação - e definirá o cabeça de lista às eleições gerais de 2027, não pode ser encarado apenas como um exercício de aritmética interna ou equilíbrio de forças. Trata-se, acima de tudo, de uma encruzilhada ideológica e estratégica.
O Socialismo Democrático que o MPLA perfilha pressupõe compromissos claros:
• centralidade da justiça social;• combate activo às desigualdades económicas e regionais;• primazia do interesse público sobre interesses privados;• papel regulador e estratégico do Estado na economia;• democracia política aliada à inclusão social e económica.
Sem o conhecimento profundo destes princípios, a governação corre o risco de se tornar ideologicamente errática, abrindo espaço para políticas que contradizem o projecto histórico do Partido e enfraquecem a sua legitimidade junto das massas populares que sempre constituíram a sua base social.
O Socialismo Democrático do MPLA não é compatível com:
• a naturalização das desigualdades sociais;• a subordinação do interesse público a lógicas de mercado desregulado;• a redução do Estado a mero gestor administrativo;• a distância crescente entre o discurso político e a realidade vivida pelas maiorias.
A progressão política no MPLA não deve assentar apenas na lealdade circunstancial, na eficiência técnica ou na proximidade a centros de poder. Esses factores podem ser importantes, mas nunca suficientes. A elevação a funções de direcção partidária ou governativa deve ter como pressuposto essencial o domínio consciente da linha ideológica, a capacidade de a interpretar à luz dos desafios contemporâneos e a coerência entre discurso e prática.
No actual contexto internacional marcado pelo avanço do neoliberalismo duro, pela financeirização da economia e pela redução do papel social do Estado, um partido de centro-esquerda no poder que abdica da sua ideologia acaba por governar com instrumentos da direita, mesmo quando o discurso permanece progressista. Essa contradição tem custos políticos elevados, sobretudo para um partido com a história e a responsabilidade do MPLA.
O Congresso de 2026 deve, por isso, ser também um congresso de reafirmação ideológica. Um momento para recentrar o debate interno, valorizar a formação política dos quadros, reforçar a educação ideológica dos militantes e deixar claro que liderar no MPLA exige mais do que ambição: exige consciência política.
Sem ideologia, o Partido transforma-se numa máquina eleitoral.Sem ideologia, a governação perde rumo.Sem ideologia, o poder deixa de servir um projecto colectivo.
Conhecer profundamente a linha ideológica do MPLA não é um luxo académico. É uma condição de legitimidade política para quem aspira a governar em seu nome.