Luanda – Apesar de uma trajetória política extensa e directamente ligada a momentos estruturantes da história do MPLA, o percurso do engenheiro António Venâncio permanece relativamente desconhecido do grande público. Com mais de cinco décadas de militância activa, Venâncio construiu um trajecto que atravessa a luta clandestina contra o colonialismo português, a formação académica no exterior, a participação em estruturas partidárias e técnicas do Estado e, mais recentemente, a afirmação pública como pré-candidato à presidência do MPLA.
Fonte: Club-K.net
O seu envolvimento político remonta a 1973, ainda sob o regime colonial, quando foi convidado por Abel de Fontes Pereira, então coordenador de uma célula clandestina do MPLA, a integrar o Movimento Popular de Libertação de Angola. A tarefa consistia no reforço da mobilização juvenil contra o domínio português. No ano seguinte, a célula foi desmantelada pelas autoridades coloniais e António Venâncio acabou detido pela polícia política. A libertação viria a ocorrer poucos meses depois, na sequência da Revolução dos Cravos, em Portugal, a 25 de Abril de 1974.
Restituída a liberdade, envolveu-se de imediato na actividade política aberta. Participou no grande acto de recepção do MPLA no bairro Rangel, em Luanda, a 8 de Novembro de 1974, realizado após o cessar-fogo entre as forças coloniais e os movimentos de libertação. Neste período, participou no recrutamento de jovens para o MPLA, então com base em Brazzaville, colaborando com o nacionalista Guilherme Tonet, e integrou o Corpo de Activistas Políticos do Departamento de Organização de Massas, no sector operário.
A militância estendeu-se a várias zonas do país, incluindo o Porto de Luanda e o município de Cacuso, na província de Malanje, onde exerceu funções de coordenação política. Em simultâneo, foi eleito membro da direcção provincial da JMPLA em Luanda, integrou a célula do Ministério da Construção e participou em comités de acção nos bairros Sambizanga, Cazenga e Rangel.
Em 1976, foi enviado para Cuba no âmbito de uma missão de formação, prosseguindo posteriormente os estudos superiores na então União Soviética, onde se licenciou em engenharia e obteve, em 1988, o grau de Mestre em Ciências Técnicas. Antes disso, havia frequentado o Liceu Salvador Correia, a Escola Industrial de Luanda e institutos técnicos em Cuba, tendo igualmente integrado o primeiro curso de arquitectura criado no período pós-independência.
Durante a formação no exterior, foi eleito responsável estudantil em Kharkov, na actual Ucrânia, e vice-presidente da União dos Estudantes Angolanos na URSS. No regresso a Angola, retomou a actividade partidária e destacou-se na criação do Comité de Especialidade dos Engenheiros, onde foi eleito coordenador do Grupo Temático para a Construção.
No plano técnico-profissional, António Venâncio dedicou-se à concepção e acompanhamento de projectos de engenharia nas áreas das infra-estruturas, urbanismo, edificações e saneamento básico, tendo participado na fiscalização de centenas de obras públicas em todo o território nacional. É co-autor do estudo prévio de engenharia do projecto Rio Luanda, que prevê o aproveitamento das águas dos rios Kwanza e Zenza, bem como das águas pluviais, para o abastecimento da capital.
Exerceu funções de direcção técnica e de gestão em várias empresas, liderou a construção do Mausoléu de Agostinho Neto, foi Director Nacional de uma empresa de elaboração de projectos e presidiu à Comissão Nacional de Empreiteiros e Fornecedores de Obras Públicas. No aparelho do Estado, desempenhou cargos de Primeiro Assessor e Assessor Principal no Ministério das Obras Públicas e integrou a equipa do PLANAGEO, projecto dedicado ao mapeamento das potencialidades minerais de Angola.
Paralelamente, desenvolveu actividade académica e formativa, leccionando no ISPRA e publicando obras técnicas como Teoria da Fiscalização de Obras e Processos e Princípios das Empreitadas Públicas. Frequentou ainda o Curso de Administração do Estado no INORADE, em Portugal, e chefiou a primeira delegação intersectorial angolana enviada aos Estados Unidos, no quadro da normalização das relações bilaterais.
No seio do MPLA, foi delegado à IV Conferência Nacional, eleito Secretário para as Comunidades no Comité de Acção do Partido onde milita e manteve actividade regular como conferencista e articulista sobre matérias sociais, económicas e políticas.
Em 2021, António Venâncio tornou-se o primeiro militante a declarar publicamente a intenção de concorrer à presidência do MPLA, posição reafirmada em 2024, passando a integrar formalmente o colégio de pré-candidatos. A iniciativa é apresentada como uma defesa do pluralismo interno e da aplicação efectiva da democracia partidária, evocando figuras históricas como Júlio Chipenda e Viriato da Cruz.
Às vésperas do IX Congresso Ordinário do MPLA, Venâncio afirma estar a trabalhar na validação da sua candidatura para disputar o processo interno com base no mérito, com o objectivo de liderar o partido e encabeçar a lista às eleições gerais de 2027. A sua proposta política assenta numa estratégia centrada no desenvolvimento, na concórdia nacional e no respeito rigoroso pelos estatutos do MPLA e pela Constituição da República de Angola.